Labirinto
Manifesto
O Labirinto é um arquivo aberto de poesia em língua portuguesa. Não é uma loja, não é um feed, não é uma rede social. É um lugar onde poemas podem ser lidos com calma, ouvidos com atenção, e atravessados sem pressa.
A curadoria é editorial — escolhemos. Cada poema é cotejado contra uma edição de referência, contextualizado quando preciso e, sempre que possível, acompanhado de uma gravação. Não publicamos tudo: publicamos o que sustentamos. Ler aqui é confiar nessa escolha.
Trabalhamos contra a urgência. O acervo cresce devagar; o leitor pode demorar; a página não compete pelo tempo de ninguém. Não há anúncios, nem rastreio, nem nenhum mecanismo desenhado para reter — entrar e sair daqui é responsabilidade do leitor.
A língua-pátria é o critério geográfico — Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Guiné Equatorial. Tradução é parte do acervo: cada poema traz seu idioma de origem, cada livro respeita a edição da casa onde foi publicado.
O texto a seguir é uma carta. Foi escrita antes do Labirinto, para outra publicação que se encerrou. Ela diz, melhor do que um programa, por que esse trabalho continua.
Mensageiros, piratas, ciganos
Uma carta-editorial
Procuramos, entre bibliotecas e labirintos, uma espécie de afeto que jamais se realizaria numa conversa. Ela se insinua na expressão íntima dos impulsos que desencadeiam as obras — as belas e supérfluas obras humanas — e se revela na necessidade incontornável de elaboração da trajetória.
Chegaremos a ela, no entanto, pela estrada sinuosa da interlocução, sempre compassada por silêncios, na qual circulam as formas como as interioridades se deixam ver, esse trato fundamental do qual somos feitos e com o qual nos identificamos e contrastamos, percebendo-nos outros e nos refundando.
Cada leitura é uma espécie de prece, ainda que saibamos da surdez dos deuses. Cada gravação é uma invocação dos cegos que cantavam glórias e tragédias, ainda que o prêmio pela conquista do destino seja a banalidade do cotidiano.
Todo contato, mesmo sempre ruído, é um exercício de admiração: se o inferno são os outros, que pequemos. Na edição de qualquer mídia, compartilhamos perspectivas, porque continua urgente o diverso, e porque a sabedoria está espalhada numa rede incapaz de acabar, diluída no ar indomável.
É um labirinto, um sistema solar atrás de uma sombra ainda maior, de uma cartografia impossível e, de repente, dispensável: todas as palavras postulam o universo.
O trabalho de edição é uma pretensão que alguns de nós, leitores teimosos e falhos, intentamos e em que insistimos, visando remontar o incompleto quebra-cabeça do sentido. É uma luta de ideias e pela sobrevivência de tudo o que derivou da primeira história.
No fundo, um catálogo de gostos, de explicações, de justificativas para a existência camufladas pelos rigores do critério. Que multidão sem forma definirá nossos eleitos?
Mensageiros dos deuses de um tempo sem deuses: eis o nosso sonho. Há tantos tesouros perdidos no oceano ingovernável da autoria, e nós seremos seus piratas, pois ouvimos em tudo o barulho do mar.
Somos os ciganos sempre estrangeiros que guardam, amarrado no silêncio de um antigo carillon à musique, o conhecimento de que o centro está em toda parte, e a circunferência, em parte nenhuma.
E mesmo quando vencidos pelo cansaço e tomados pelo desencanto, continuamos a pedir que o caminho seja longo, e que muitas sejam as manhãs de verão, nas quais, com que prazer e alegria!, chegaremos a portos nunca antes vistos.
Redescobrimos o paraíso perdido: um pequeno yanomami na arquitetura colossal da floresta. É um amazônida. E nós o estamos cerrando com fogo, porque ele insiste em não ingressar na ordem.
Conhecemos bem a expulsão, o êxodo, e talvez a vivamos repetidas vezes para que, depois, finalmente, reconquistemos o direito ao lamento. E faremos canções sobre o nosso erro, sob o sempre atrasado reconhecimento, em perpetuum mobile.
De que outra forma criaríamos qualquer espécie de salvação?
Nesses tempos de peste, a palavra italiana isola me assaltou de numerosas vozes. Havia uma isola no Mar Tirreno, perto da baía da Gaeta, na costa do Lácio, por onde ainda corre uma estrada que ainda leva a Roma. Ela se tornou, para mim, neste último ano, uma eterna promessa, como uma sonhada peregrinação pelas veias abertas da América Latina.
Só muito tempo depois me dei conta de que, quando dizemos isolados, estamos dizendo, literalmente, ilhados. Estamos todos ilhados. E haverá sempre qualquer teimosia de querer crer que aprendemos algo com tudo isso, mas não é um reduto, é o degredo.
Precisamos fazer contato.
A verdade é que somos profundamente religiosos, apesar desta casca cética. E esta precisão é nosso exercício de fé.
Sim, nós não somos, a princípio, seres racionais. Talvez possamos nos tornar, mais ou menos, num segundo momento. Em primeiro lugar, somos movidos pela sede de vida, pela fome, pela necessidade de amar, pelo instinto de encontrar nosso lugar no mundo. Homo demens. E a peste comprometeu demais as coisas.
Eu vi a peste enclausurado numa casa antiga de uma via romana. Antes dela, assisti à queda do céu no centro de São Paulo, às quinze de um expediente em tudo comum, com sua ordenação burocrática irretocável. Era um outro fim do mundo, pleno de fumaça e da velha apologia predatória e eficiente dos poderosos.
Eles nos envergonham, mas continuamos sendo a classe dos ridículos, heroicos e ridículos, como os velhos poetas. Ridículos, os guardiões da canção dos tempos.
Os cabelos andam caindo como folhas, talvez seja esse o triunfo do ofício. Dez anos sob laudas. E cá estamos. Mas ainda há mendigos pelos telhados e grinaldas frescas de pranto. São esses os versos da voz que busco, quando empreendo a busca. Ouço Pequeño vals vienés, do Lorca, mas da boca milagrosa de Silvia Pérez Cruz.
Quando perco algo inquestionavelmente belo, recupero Cello suite no. 1, de Bach. Mas não me iludo, você sabe, meu espólio é feito da memória de campesinos imigrantes: cartas de analfabetos que ainda não aprendi a ler. Falta-me vocação para heranças, por isso o ofício da mensagem, ainda que seja para o fardo do anúncio, rainha, de que teu exército fora derrotado.
Caminhantes: eis o que ainda podemos. E mesmo sabendo que não há caminho, pedimos que ele seja longo. E nem os lestrigões, nem os cíclopes, nem o colérico Poseidon encontraremos, pois os expulsamos de dentro da alma.
Deixaremos a porta entreaberta, como nos deixaram os que já encerraram sua vigília, porque ela continua sendo, no fundo, uma forma de prenúncio:
Quem vem lá?
— Luan Maitan