Advertência
Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira,
pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada
por filas de cercas paralelas,
com trepadeiras moles balançando e florido;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos,
cheirando a resina de pinheiro e fala;
na tua sala de jantar, em que os teus avós
leram a Bíblia e discutiram casamentos,
colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com
lãs felpudas e linhos encardidos,
colares, gravuras, papéis graves e moedas
roubadas ao inútil maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as
Cruzadas, desse teu riacho serviçal,
que engorda trutas e carpas;
Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem
com entradas,
quintalejos, campanários e burgos,
que cabe toda na bola
de vidro do teu jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces
pelo nome – o carvalho do açude, o
choupo do ferreiro, a tília da ponte –
que conheces pelo nome como os teus
cães, os teus jumentos e as tuas vacas;
Europeu!
Filho da obediência da economia
e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! Os tumultos do nosso sangue temperado
em saltos e disparadas sobre pampas,
savanas, planaltos, caatingas onde estouram
boiadas tontas, onde estouram
batuques de cascos, tropel de patas,
torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na
coxilha verde,
alegria virgem de rios-mares, enxurradas,
planícies cósmicas, picos e grimpas,
terras livres, ares livres,
florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir,
de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta
do pé!
Europeu!
Nessa maré de massas informes,
onde as raças e as línguas se dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo
flutua sobre as coisas,
sobre todas as coisas divinamente rudes,
onde bóia a luz selvagem do dia Americano!