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Amtrak

Somando tudo já dei um par de vezes a volta

ao mundo agora outra vez enamorada outra vez

desengomada e tão de veludo e tensa e tenra

e outra vez um muito semelhante cansaço de urgência

impossível não comparar este relato de me deslocar

até ti com um poema de amor de há dezasseis anos

escrito em turbilhão e certeza onde maldizia

de avaro e com que ironia hoje o tempo

e pensar isto é pensar que muito se medita mas já se prevê

que não é desta que termina a correria

é Outono

outra estação outro país outra idade tu

falas outra língua tens a pele anilada

que herdaste de pais que vieram da Índia

e esta carruagem que me leva já vem do Canadá há

o Hudson que bordeja em serpentina sem eucaliptos nem igrejas

desta vez como num sonho crepitante há

folhas de ácer lembrando nos três dedos

patas de asas curtidas em peles secas e ocres e rugiriam

se pisadas

embora condiga a paisagem com mais doces imagens

de resto que perfeito isto até o frio

cá dentro não se sente e coa-se o ocaso

e eu deslizo para ti e um outro continente há

tantas horas viajo que quase tudo esqueci

menos o quanto abençoadamente

menos esta ternura coberta de fadiga

mesmo se suspeite

que sub-reptícia mova a vertigem e o impossível não dure

e de repente tenho vinte e um anos outra vez há

pouco tempo sou outra vez maior

visto que chego esta noite e tudo indica que faremos amor

voei sobre a água até ti suporto este atrito até ti

devoro as copas do ácer no Outono para me deitar junto de ti

contanto desta vez adivinhe – ou já percebi –

que são lindas promessas mas dificilmente nos perseguimos

até ao fim sequer a nós próprios porque a viagem

tem esta coisa de nos provar que já não somos o que fomos

e porque haveríamos de ser separados de vidas anteriores

e colocados em lados contrários do globo

– amor que tudo move como iludes na verdade –

quero perscrutar pelo grande vidro deste vagão

a noite e descubro o meu reflexo sedentário

mas já não sou quem podia não ter usado o bilhete

na bifurcação além deixei-o para trás

e se compreendo o que antigamente era é

agora à luz da América e de ti

amor com desenlace iminente

e de todos os registos e testemunhos e gritos

de vidas por esse exigente caminho fora

sem tréguas mas com contemplações

se compreendo isto é porque compreendo dizia talvez

o tempo aqui por esta faísca em frente no espaço:

é preciso contar ao pormenor e repetidamente

o que vivemos e por que ansiámos e onde chegámos

pois é na medida em que nos movemos que mudamos

e basta deslocarmo-nos para divergirmos tu

soubeste antes de mim – evidência que me surge com algum choque –

quando voltaste para aí depois da proposta que foste fazer-me

onde eu estava tiraste-me de lá amor

e respiraste-me ao ouvido Vai

fazendo com isso logo com que um pouco eu te perdesse

e será assim para sempre repetir constantemente por onde passámos

quem foram os nossos pais e quem julga neste momento

Vossa Majestade que eu sou quem não seremos jamais eu

envelheço falta-me a mão

para escrever e para errar quanto mais viver

importa portanto esta noite ir-te amar

vá o pensamento com o movimento e o cansaço

e algum frio que se levantou desde há bocado

não haja aspereza de palavras ou pedidos se

o que escrevo a cada quadrado de janela não fica se

modifica e passa se

expira a intensidade e o vazio a agarra – tanto

mais acerbo quanto ela for real – insisto

por ti por amor que me movi

em quatro sentidos seja total

a graça à noite

e nós no final

um pouco após a luz ainda unidos

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