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Funerais

Nos funerais encontramos a família.

Nunca fomos tão claros

como no luto

e nas memórias anedóticas

que amenizam o morto.

Que sangue é o teu

para que o meu se assemelhe?

Alguns velhos trazem flores

que já ofereceram nos casamentos

e entre eles decidem

que somos uma família,

conhecem os primos que não

conheço, lamentam a sorte

daqueles cuja sorte é conhecida,

são ainda mais graves

do que nós, e usam

diminutivos carinhosos.

O meu nome far-se-á pó

com o meu corpo, pensa

uma mulher que já é viúva,

há irmãos completamente mudos

e as crianças jogam à cabra-cega.

Seguimos em cortejo

compondo as gravatas,

o vento não percebe que morreu gente.

Dez pessoas acompanham o padre,

os outros já não se lembram

das orações,

dez pessoas pensam

no que têm pela frente,

os outros acompanham o caixão.

O coveiro mais novo

dentro de pouco tempo

enterrará o mais velho.

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