● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

interlúdio em forma de Pessoa

fumando inexplicavelmente versos

é que me conheço fumo

dos grandes invisíveis humanos

conheço a névoa das substâncias

mas um corpo líquido é que penso

tenho desejo de mim ao passar pelas ruas de ontem

queria ter-me entrar por mim como um verso

uma espada consciente de carne

que me dissesse que existo e sou agora

o vazio mais visível dos meus sonhos

é dessa fome que traço um caminho bífido

mais ou menos raso de raiz angústia

quando ardem versos e caminho pelas ruas de hoje

tocando apenas nos gestos avenidas de ontem

como se reconstitui um corpo de amante perdido

de pé nas escadarias dos sonhos mortos

tenho um essencial desejo dessa natureza

viva e morta que ubiquamente é eu

fumo-me para me encontrar entre essa neblina

entre a circunstância dos dedos e das rugas

consumo-me burlescamente ultraliricamente

o que me sai do genital celeste

a minha vida a existir é um vício textual

uma vontade de partículas incendiadas

pelo cego sentido que comanda tudo

(à porta do azul o anjo chamou-me

com contrários sentou-me num livro de vidro

abriu-me o livro pelas costas sussurrando

«entra no livro e come»

o mistério das asas arde na garganta

como o pó que a viva palavra levanta

o amor chegou vinha duma ópera de gluck

entrou-me pelas imaginações com sede

bebedor de distâncias e deixou-me depois

da sublime carne das fendas interiores

um corpo apenas é este o meu caminho)

tenho passado assim o coração dos becos

lembro-me do prazer da roupa suja

da noite íntima e quente de eu ser usado

pelo meu próprio sonhado outro

minha vida verdadeira saudade de pedra

onde eu sou maximamente nada

a cruz a morte e a salvação

ler a minha vida assim tão medievalmente geométrica

tão em tesão essencial da morte

dá-me o prazer carnívoro de me escrever

de me deitar rasgado pelo texto fora

comendo os braços de mágoas e a pedra em sangue

numa brutal obsessão mística por mesmo mim

escrevendo-me noutro corpo que me leia

alimento-me da minha própria fome

grito-me engenho-me

trituro-me em todos os versos

na carne abandonada de mim eu tenho fome

no rosto dividido de mim eu tenho fome

do corpo percebido de mim eu tenho fome

mas é desta avenida eu que caminho que me alimento

neste acto pétreo gnóstico de mim este

masoquimisticamente sobre-viver-me

é este o meu ciclo alimentar e assassino

essa palavra de eu me morder na boca

na carne final de que me vivo

na língua de pedra dos grandes invisíveis

eu como o meu total milagre

biofágico vivo

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