Língua materna e línguas inimigas
No início, não havia mais que uma só língua. Os objetos, as coisas, os sentimentos, as cores, os sonhos, as cartas, os livros, os diários, estavam nessa língua.
Eu não podia imaginar que pudesse existir outra língua, que um ser humano poderia pronunciar uma palavra que eu não compreendia.
Na cozinha da minha mãe, na escola do meu pai, na igreja do tio Guéza, nas ruas, nas casas do povoado e também na cidade dos meus avós, todo mundo falava a mesma língua, e nunca tinha sido cogitada a possibilidade de outra.
Diziam que os ciganos, instalados nos arredores do povoado, falavam outra língua. Eu pensava que aquela não era uma língua de verdade, mas uma língua inventada que só se falava entre eles, do mesmo modo que fazíamos meu irmão Yano e eu, quando falávamos de modo que nosso irmão mais novo, Tila, não pudesse entender.
Também pensava que os ciganos faziam isso porque na taverna do povoado eles tinham copos marcados, copos que eram apenas para eles, porque ninguém queria beber em um copo em que um cigano tinha bebido.
Também se dizia que os ciganos levavam as crianças. É verdade que eles roubavam muitas coisas, mas quando passávamos diante de suas casas construídas com adobe e víamos a quantidade de crianças que brincavam ao redor daqueles casebres, nos perguntávamos por que iriam roubar mais crianças. Além disso, quando os ciganos vinham ao povoado para vender seus potes de cerâmica ou seus cestos de vime, falavam “normalmente”, isto é, a mesma língua que nós.
Quando eu tinha nove anos, nos mudamos. Fomos morar em uma cidade fronteiriça onde pelo menos um quarto da população falava a língua alemã. Para nós, húngaros, era uma língua inimiga, já que nos lembrava da dominação austríaca, e também era a língua dos militares estrangeiros que nessa época ocupavam nosso país.
Um ano depois, foram outros os militares que ocuparam nosso país. A língua russa tornou-se obrigatória nas escolas, as demais línguas foram proibidas.
