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Madrigal para Cecília Meireles

Quando na brisa dormias,

não teu leito, teu lugar,

eu indaguei-te Cecília:

Que sabe o vento do mar?

Os anjos que enternecias

romperam liras ao mar.

Que sabem os anjos Cecília,

de tua rota lunar?

Muitas tranças arredias,

um só extremo ao chegar:

Teu nome sugere ilha,

teu canto: um longo mar.

Por onde as ondas fundias

a face deixou de estar.

Vida tão curta, Cecília

pra que então tanto mar?

Que música mais tranquila,

quem se dispos a cantar?

São tuas falas, Cecília,

a barco tragando o mar.

Que céu escuro havia

há tanto por te espreitar?

Que alma se perderia

na noite de teu olhar?

Sabemos pouco, Cecília,

temos pouco a contar:

Tua doce ladainha,

a fria estrela polar

a tarde tem funesta trilha,

a trilha por terminar

precipita a profecia:

Tão curta a vida, Cecília,

tão longa a rota do mar.

Em te saber andorinha

cravei tua imagem no ar.

Estamos quites, Cecília:

Joguei a estátua no mar.

A face é mais sombria

quanto mais se ensimesmar:

Tão curta a vida, Cecília,

tão negra a rota do mar.

Que anjos e pedrarias,

para erguer um altar?

Escuta o coral, Cecília:

O céu mandou te chamar.

Os anjos com tantas liras

precisam do teu cantar.

Com tua doce ladainha

(vida curta, longo mar)

proclames a maravilha.

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