● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O osso côncavo

Ó ímpeto do Espírito,

radícula que o vento despenteia e o músculo imprime

travejado por dentro!

Ó longilínea dilatação do tempo,

barca oblonga onde nascem os rios, lentos,

adornando seu plasma na noite!

Da tua anca de água negra, das cavernas

soltas no dorso do abismo,

é que te escarvo, osso côncavo,

a fauce rilhando de te lancetar a carne inútil,

o gume da estraçalhada língua, o sibilante enigma,

a curva suspensa e a sombra eléctrica,

ó força, ó inominado!

E de te ver!

Nem linha elíptica, tu a combinatória do que persiste

no desvão das palavras, quando ingénuas convocam

a eternidade, e nem trave rectilínea ou frontispício,

ou ensanguentada testa de fauno,

tu que só aceitas o esterno e o ilíaco

e a lava que se derrama dos pulmões furiosos;

E concebeste o indizível! Como dizer o que há no vazio

em riste dessa curvatura, oscilante eco sem memória

de ventre onde nem a águia se atreve ao vôo

e a serpente se desenrola até à evaginação de si?

Não te nomeio. Caminho. E o plano se inclina, grave,

ondulantemente terrível. Névoa ou pele ou pano,

já às raízes se contraem e pulsam, odoríferas, húmidas,

um enxamear de deuses espargindo a poeira;

E tu, intacto, flutuante onde ninguém te disse

e a palavra se acoita, espasmódica,

fetal. Seu silêncio enformando-o, ao osso,

côncavo.

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