● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O roupão de Balzac

Queria ser

o roupão de Balzac. O

mesmo que Rodin

esculpiu

toscamente, em gesso,

armado todo ele

sobre arames

mal disfarçados,

branco, sujo

da patine amarelada

do tempo. Estar

assim muito

quieto, diante

do tempo todo,

suspenso de uma

fragilidade branca,

escondendo o que

restou de um

corpo que já

lá não está,

assente sobre

pés (de barro),

sem mãos, e sem

cabeça. Permanecer

hirto, grave,

disforme até,

lembrado da presença

desse corpo

que se foi

antes mesmo de chegar

a envolver-se no

tecido rugoso,

abraçando o vazio

tal se abraça

a carne. O

roupão de Balzac,

cingido como se

à saída do banho,

ou de noites de

insónia, dos excessos 

da comédia humana,

diante de mim

chama-me. Pede

-me para entrar

nele, qual

quarto à noite,

desaparecer nele,

fundir-me nele e

ser para sempre

aquele

vazio entrevisto

entre as golas

gastas, roídas

pelo tempo, pela

usura. Resto de corpo

a que cortaram

as goelas e

decapitado,    

escrever-lhe as

memórias. 

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