● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Rio de Janeiro — Lisboa

um dia você

adora meus óculos

adoro os teus óculos

no dia seguinte

não quero que venhas na fazenda

três dias antes

você ia adorar este lugar

você quer vir até à fazenda?

um dia eu rasgo

o tecido celular do rosto

realizo um sorriso constante

que atravessa o morro

o ponto mágico do morro

rasgão alegre que fulmina

o veio mínimo da folha

de amendoeira

e pelo feixe de luz tropiquente

vai parar na cara de João

vendedor de suco no leblon

em ricochete João grita açaí!

qualquer dia eu vou e chego

no outro dia

a cidade se aborrece

desdignificada pela

gigante roleta

que se chama medo

o urubu fica empoleirado

na trave enferrujada

daquilo que já foi suporte

ao cartaz que anunciava

o novo mundo das piscinas

fosforescentes

o pássaro suspenso

olhando a via rápida

e catando caca

debaixo da unha

temendo o gira girar

da pequena roda

que circula sorte e azar

um dia você

escreve para seus pais

falando sobre o amor

quarenta dias depois

teus pais te escrevem

falando sobre redes de pesca

e o perigo das redes de pesca

um dia você me envia uma carta

depois a outra

o rasgão explode

recordando ainda outra carta

de alguns meses antes

o postal eterno que dizia

still crazy (after ali

these years)

faço voto de silêncio

mas na sacralizacão

horária das avenidas

eu penso que você

sua mãe e seu pai

conversam muito

sobre peixes

e que isso mantém quieta

a roleta negra

e que isso mantém aparada

a unha do urubu

e que isso faz homenagem

a João e à fruta espessa

que brilha vermelha

em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a****

eu a****-te

no dia seguinte

a amendoeira se expande

e floresce cinco folhas mais

nesse dia reparo

que estamos contribuindo

você e eu

para o florestamento

da cidade

de duas cidades

faço voto de silêncio

mas na sacralização horária

da respiração eu penso

que apesar da saía de casino

abrigo da gigante roleta do medo

apesar dos golpes de gmt -3

apesar da fita de seda que fica

ondulando sua medida de 7800 km

estamos dando utilidade ao amor

alargando os braços das amendoeiras

alargando os braços dos jacarandás

partindo as inúteis linhas de fronteira

e fazendo do mundo

a gigante floresta.

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