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Soneto da infidelidade

Toda a poesia é feita de traição

e ao que somos fiéis já não sabemos:

da terra de que vimos só retemos

memórias que nos duram sem razão.

Escondemos na poesia o que não sabe

seu nome nem seu canto na memória:

escondemos na poesia não vitória,

mas restos de viver, o que não cabe

na fria tábua rasa da experiência

destilando sem fim na consciência

o mais fino licor da emoção.

É infiel ao verso a poesia:

nela se apura a noite contra o dia

e a nós mesmos nos trai no coração.

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