● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Um jardim para Ingeborg

Deste lado

da cerca do jardim

estamos.

Do outro lado

o mundo.

Dias inteiros

bateram contra a cerca

e vemos agora seus pedaços

entre os cogumelos podres

no chão.

Pássaros voltam do inverno

o tempo é de recomeço

e o jardim sobreviveu

ao moinho das estações.

Também nós

nos reerguemos

sobre as cinzas e as bombas e os cadáveres.

Nenhum jardim

é inocente.

Não se misturam

as coisas e as palavras

intraduzíveis umas pelas outras:

de nada vale colocar um seixo no lugar de um

nome

que falta

ou adornar um verso

com uma flor de laranja.

O gelo que um dia destruiu o jardim

deixou intacto este poema.

Silenciosos

estranhos

andamos ladeando

a cerca

sentindo sobre os ombros

o peso novo do verão.

Usamos palavras antigas

pedra folha e noite.

Só nelas ainda

confiamos.

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