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Voz de Wenceslau de Moraes

espero há anos outro coração

para dele fazer a única mobília

neste cubículo em madeira anosa murado a papel

a que também chamamos tórax

é transplante adiado

carece que primeiro morra um dador, que ocorre

ser eu neste exílio em mim

tão distante tão tautócrono

espero e caibo

no que excedeu o contorno exótico e flutua

hoje no melodrama

convive com o fim, sazão de tudo

o que alguma vez viveu

um dia este saco velho

atado pela baraça do ego romperá

voltarei à condição mineral

serei uma pequena galáxia de cinzas

e de pó

a minha água e a minha sede

separadas

a fome e o anseio

esvaziados

tudo adentrando

na boceta de charão que guarda

as pérolas

e os planetas

venderão as porcarias

que o mundo veio juntar à porta dos meus dias

e paguei com o afecto dos anos

ocuparei as fotos

mover‑me‑ei na rigidez caricata

das aventesmas

suporão quiçá remirar‑me

no peixinho‑dourado que nada no tanque

destes vocábulos mas já

o peixe terá sido lançado ao rio

na festa do ano novo

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