Ação de graças pelo desconhecido
Obrigado, Santa Rita, padroeira
dos que passam a vida
de quatro, pela graça desse menino,
mineiro de naturalidade, não
de profissão.
Ele existe, inteiriço, completo,
dorminhoco a meu lado,
enquanto o ônibus sacoleja
pela Serra do Espinhaço,
entre Curvelo e Diamantina.
Fruto do mistério violento
desse liquidificador de sangues,
ele é um triângulo de bermudas.
E aqui, com a cabeça quase a pender
sobre meu ombro, feito um dono
do mundo, ele cabeceia
no sono o nada.
Quem terão sido os dezesseis
trisavós e trinta e dois
tataravós desse campeão,
desse vencedor contra a sub
-nutrição de tantas e tamanhas
gerações raquíticas?
Quais finaram de doenças estrangeiras,
quais comeram terra no banzo,
quais mataram-se
no banalíssimo desespero quotidiano?
De quais guerras e epidemias
escaparam, ilesos
ou não, para que esse corpo
forte, descendente aperfeiçoado,
cruzasse em relativa paz
esse território pedregoso
do nosso quinhão de mundo?
Santa Rita, ele mais parece
um faraó, um tlatoani, um xá,
e eu gostaria tanto de vê-lo
interpretando Tutancâmon,
Nezahualcóyotl ou Reza Pahlavi
no meu Hollywood pessoal.
Na orelha esquerda, ele
carrega uma cruz, um brinco da Cruz,
ah! esses nossos modernismos
arcaizantes! Santa Rita, rogai
por estes pés
seminus na tanga das havaianas.
Fico toda adélia nesses prados
ao ver o que se anexa
a seus calcanhares. Dois!
Com cinco dedos cada!
Minha alegria é a perfeição
de suas unhas tão bem fabricadas,
que jamais despedaçaram presa
alguma. Seus dentes saudáveis
que rasgam a carne de outros
e que outros mataram. Eu o amo.
Não, eu não o amo. Quem
ama estranhos totais? Eu amo
estranhos totais.
Eu amo esse estranho total.
Ele não precisa saber. Meu amor
floresce nessa insciência alheia.
Se um amor cai no meio de uma serra
e ninguém o ouve cair, ainda
assim existe esse amor. O amor
é uma esquisitice
que melhor se cozinha calada, calado.
Galado está o ovo do amor.
Da orelha do rapaz pende
uma cruz
na qual crucifico-me de bom grado.
Benzadeus,
cabeça encaracolada, agradeça
seus pais, delicioso húmus futuro.
Vem ver, Adriano. Vem ver, Constantino.
Essas estátuas biodegradáveis são
meus credos e minhas cruzes,
uia, saudabilíssimo tabu,
eia, saldabilíssimo totem.








