Morticínio ancestral
Quando minha avó torcia o pescoço
dos frangos, não raras vezes
chegando a decapitá-los,
e os lançava ao chão frio de cimento
para aquela dança assustadora,
não havia em seu rosto
paixão, prazer ou pena.
Na escuridão escondida dentro do meio-dia,
aqueles morticínios eram os atos
mais honestos na violência
daquela casa e daquela infância.
Afogando na água fervente
os cadáveres sem cabeça
(que ficara de banda no quintal
interrogando seu Criador),
ela passava a depená-los, ágil, qual fosse um gavião-pedrês.
Como o cafuné do crânio da onça
no crânio da capivara,
ou o abraço anelar das garras do carcará
ao redor do corpo todo-torso da cobra,
nada naquela velha
era cogitado
para além da missão simples:
alimentar a prole.
Como todo animal que não questiona
a cadeia alimentar diante da fome,
minha avó foi o bicho mais inocente
da minha casa e da minha selva.
Mais do que os gatos e pombos,
mais do que os jabutis e coelhos,
com certeza
era mais inocente minha avó
do que as cachorras da casa,
aquelas cachorras grandes e gordas
com os dentes afiados - mas inúteis.
esperando também da mamífera-anciã
que manchasse ela as mãos de sangue.





