Breve poema de viagem
Da plataforma do último vagão
te absorves na fuga da paisagem.
Se ao passar por uma avenida de eucaliptos
notaste como o trem fingia entrar
numa catedral cheirando a febre e chá;
se vestes uma blusa que entreabriste,
por causa do calor,
deixando à mostra uma parte de teus seios;
se o trem continua descendo
paras as ardentes savanas onde o ar se apaga
e as águas exibem uma nata verdolenga
que denuncia sua extrema paragem
e a inutilidade de sua presença;
se sonhas com a estação final
como um grande recinto de vidros opacos
onde os ruídos têm
o eco insone dos hospitais;
se jogaste ao longo da estrada
a casca murcha de frutas de alva polpa;
se ao mijar deixaste sobre o corado saibro
a marca de uma fugaz umidade
lambida pelos gusanos do sol;
se a viagem persiste por dias e semanas,
se ninguém tem fala e, dentro,
nos vagões lotados de negociantes e romeiros,
te chama por todos os nomes da terra,
se assim é,
não terei esperado em vão
sob o breve lintel do clorofórmio
e entrarei amparado por uma vaga esperança.