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Canção fraterna

Irmão negro de voz quente

o olhar magoado,

diz‑me:

Que séculos de escravidão

geraram tua voz dolente?

Quem pôs o mistério e a dor

em cada palavra tua?

E a humilde resignação

na tua triste canção?

Foi ávida? o desespero? o medo?

Diz‑me aqui, em segredo,

irmão negro.

Porque a tua canção é sofrimento

e a tua voz sentimento

e magia.

Há nela a nostalgia

da liberdade perdida,

a morte das emoções proibidas,

e a saudade de tudo que foi teu

e já não é.

Diz‑me, irmão negro,

Quem fez a vida assim...

Foi a vida? o desespero? o medo?

Mas mesmo encadeado, irmão,

que estranho feitiço o teu!

A tua voz dolente chorou

de dor e saudade,

gritou de escravidão e veio murmurar à minha em alma ferida

que a tua triste canção dorida

não é só tua, irmão de voz de veludo

e olhos de luar.

Veio, de manso murmurar

que a tua canção é minha

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