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Negra

Gentes estranhas, com seus olhos cheios doutros mundos

quiseram cantar teus encantos

para elas só de mistérios profundos,

de delírios e feitiçarias.

Teus encantos profundos de África

Mas não puderam.

Em seus formais e rendilhados cantos,

ausentes de emoção e sinceridade,

quedaste-te longínqua, inatingível,

virgem de contactos mais fundos.

E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,

jarra etrusca, exotismo tropical,

demência, atracção, crueldade,

animalidade, magia...

e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados

foste tudo, negra...

menos tu.

E ainda bem.

Ainda bem que nos deixaram a nós,

do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,

sofrimento,

a glória única e sentida de te cantar

com emoção verdadeira e radical,

a glória comovida de te cantar, toda amassada,

moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE.

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