● Hojequarta, 22 de julhover calendário →

Canto de nascimento

Aceso está o fogo

prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha

de mergulhar na noite.

As mãos criam na água

uma pele nova

panos brancos

uma panela a ferver

mais a faca de cortar

Uma dor fina

a marcar os intervalos de tempo

vinte cabaças deleite

que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite

o silêncio aberto

de um grito

sem som nem gesto

apenas o silêncio aberto assim ao grito

solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória

que acende a noite de palavras

depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde

no fogo de uma dor fria

igual a todas as dores

maior que todas as dores.

Esta mulher arde

no meio da noite perdida

colhendo o rio

enquanto as crianças dormem

seus pequenos sonhos de leite.

Textos relacionados