● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Eis-me aqui

Estou aqui

a contar-te dos caminhos que percorro

velhos estreitos esventrados

caminhos de sulcos e de cabras onde

nossos avós colheram pão de côdea dura

estou aqui

a contar-te dos cheiros doces e acres

dos frutos tropicais

cheiros que se foram confundindo no sangue

que se afundou em docas e mares mas emergiu

mais vermelho que o chão da nossa terra

estou aqui inteira viva irrequieta como pássaro

que acasala no equilíbrio de um ramo

e como tu quero ferir meus pés

no lençol de pedras que atapeta o ôbô

inundar de algas azuis o corpo reflectido

no espelho das calemas

estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres

e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo

estou aqui como tu

borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas

e morre a ouvir histórias de um país calcinado.

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