● Hojesexta, 12 de junhover calendário →

Impressão directa do esplendor

É de noite agora neste momento

em que dou de caras com o esplendor.

É verdade.

Em quase tudo, se paro,

encontro este diáfano que se acende:

o esplendor.

Nesta grua que se eleva

no estaleiro dos prédios em construção

entre andaimes, tapumes e holofotes,

nesta grua

que se eleva

nas cores difusas e nocturnas

como um fantasma

e até nas cruzes em tinta branca

que marcam os vidros por acabar

(das janelas por acabar)

há uma fala que diz:

proibido

proibido passar

como alguém que marca

um sinal

aqui

no diáfano

da penumbra iluminada

da noite

onde canta o esplendor.

Infinito. Frio. Monumental.

Em que há uma bondade…

uma bondade…

não sei se distante de tão grande,

se fria de tão infinita.

Bondade imensa e não humana

que o pensamento não toca mas sente.

Onde está o erro de lógica

com que sempre te penso, Deus?

Onde está a dificuldade

com que não consigo pensar-te?

E no entanto sinto-te.

Tenho saudades, tantas,

tantas, tantas saudades,

saudades agudas

do que estou a ver agora.

Porque o que vejo é tão grande

e tão belo que me dói

a ideia de quando aqui já não estiver.

Se eu pudesse gravar tudo o que vejo.

Não em palavras, nem películas.

Não.

Se eu pudesse gravar para sempre

talvez numa outra alma infinita tudo o que vejo.

Hoje dei de caras com uma fotografia.

Era uma rua de Coimbra.

Olhei para essa fotografia

e houve qualquer coisa em mim que disparou

como um cavalo em corrida,

como uma estrela cadente.

O que foi?

Há tantos anos atrás

(lembrei-me!)

calcorreei essa rua todos os dias

para ir estudar piano

num quarto que não era meu.

Que linda rua, toda forrada de prédios antigos

e imaginativos, irregulares, suaves.

Repletos de curiosos e cândidos detalhes.

O que me aconteceu?

O que foi?

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