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Lugar reservado

Mesmo que durante o comboio

passe em revista o coração,

subo a plataforma inclinada

e se olho é nunca

em frente, nunca para baixo.

O meu lugar está reservado

e sei há muito: um pé

verdadeiro não é nosso,

serve apenas à dor, se for preciso

lembrarmo-nos de que a existência.

O melhor pé que temos é cada passo:

sabe sempre o caminho,

o degrau seguro, invisível e escuro,

transparente, sujo por todos os outros,

nunca fomos nós.

Valido o meu bilhete e amores antigos,

tenho dúvidas diárias, sono e a música

que ainda cabe.

Espreito sem medo ou lentes

a revista dos outros passageiros,

jornais gratuitos,

histórias de pessoas sem pés,

sapatos duplos, meias de vidro,

uma mulher sofre de silêncio

porque lhe mudei a partícula,

silenciosa e agora quase poética,

nunca a vi antes desta paragem.

Revolvo os meus papéis e

a escola secundária passa demasiado

depressa por mim, outra vez

todos os dias úteis. Desfocada

se a marcha é normal;

nitidamente outra,

se alguém na linha

impede o curso de alguma coisa:

as nossas vidas, aquelas

a que estamos ligados

por outras linhas, estes quilómetros

ou mais, os anos que passaram

(e quantos minutos eram)

todas as bebidas

que podíamos legalmente comprar

no bar à saída do liceu.

(Sim, uma taberna: nunca lá entrei.)

Podia ter trazido outra na minha vez,

o meu bilhete é válido e também

as minhas dores sem culpa.

Sou por defeito ainda capaz de me indignar

com todas as coisas impossíveis.

Não sabia antes

de frequentar esta estação

que havia de ver ao longe

os carris negados aos meus pés,

os dois,

a doerem-me agora

sei que existem

e eu sobre eles.

Vou descalçar-me antes do fim,

faltam-me dois versos e não disse

tenho uma vida limpa e por isso

os meus joelhos não podem

dobrar-se à distância,

nunca foram até lá.

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