O outro
O homem opaco está caminhando na sombra. A rua úmida reflete o sono dos lampiões, e a cada passo um reflexo foge no calçamento molhado e volta um novo reflexo, monotonamente. Como os amores que morrem e se repetem, como as idéias, como tudo. Casas trancadas de arrabalde são as testemunhas mudas do minuto, gatos flexíveis na escuridão, com patas de veludo, a aberta fresca de um jardim saturado de chuva primaveril abre o regaço caricioso, hálito da seiva na noite. O homem passa.
Ao pé dos focos de iluminação, a sombra do homem espicha-se, comprida, interminável, com pernas fantásticas de pau, até tocar no outro lado da calçada e trepar a parede. Mas não vê o delírio da própria sombra, vê só as outras sombras que moram na mesma memória...
Mil e um vultos do passado chegam na ponta dos pés e se debruçam com a malícia do mistério sobre o seu ombro. Vêm deles um aviso de morte, um olá! indecifrável. E pesam tanto que, para aliviar a carga, o homem suspira, como um doente muda de posição na cama, removendo o peso da febre.
Nuvens de breu pesavam, tão baixas, que o vulto ficou mais corcunda. Os passos acordavam passos na calçada. A chuva engrossou, desabafo largo, refrigerante. Plocplac e o roçagar do impermeável. Depois, a chave na porta, a subida na escada escura, como um ladrão prudente.
O indicador no botão da luz premiu a claridade. Tirando o paletó, destramando o nó da gravata, foi até o espelho.
Do outro lado, no lago emoldurado, o mesmo Outro, que era e não ela ele mesmo...