● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Poeta aos setenta anos

Um gesto a que assomasse algum amor

ou um olhar solidário de velho camarada:

nem eles poderiam já infectar de vida insolente

o deserto dos dias que se movem por detrás das altas janelas

ou por dentro dos subterrâneos.

Ninguém mais vem para a varanda cantar teimosamente

o que dói nas nossas vozes e dorme nas nossas veias.

Os sinos continuam a tocar nos dias escuros e claros

sobre ruas desertas ou só atravessadas a medo, porta a porta,

vida a esconder-se de viver.

Pela noite alguém escreve, mas sabe que não escreve para si

nem para os leitores que perdeu noutras idades.

Que um rosto assome à janela, que um verso se perca na rua,

que o nosso orgulho de viver possa durar para além das nossas vidas.

Textos relacionados