Poiêtikê
Para Maria de Sousa e Anabela
I
Vindo o momento, tudo aquilo que separou
ciência e poesia deixará
de existir sobre a terra.
E o mistério terá o seu quinhão
entre as coisas aceites, entre as coisas
que, parecendo sombras, mais não são
do que a graciosidade que se esquiva
àqueles que tudo querem devassar.
O maior dos mistérios é a música, disse ela.
E eu concordei.
Mas penso, às vezes, na respiração.
Por muito que a ciência nos explique
o mecanismo do pulmão, o desempenho
do oxigénio, como se refere
isto ao nosso sufoco, ao nosso anseio,
ao convulsivo sorvo da criança
que perde a protecção, que a própria mãe
expulsa de si, e será sempre alguém
precariamente vivo, alguém que deve,
segundo após segundo, abrir o peito
para que nele entre o invisível e dele saia
imediatamente o invisível?
Há, dir-se-ia, um ritmo musical
