● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O retrato de D. Luís de Gôngora

cara de vampiro, nariz boxeado pela vida,

stiffness, teu legendário orgulho desmesurado,

sem ironia ou sorriso a boca nos cantos desce,

não vejo tuas mãos, estarão escrevendo,

estarão manipulando o ábaco da sintaxe,

preocupado te vejo em encontrar tesouros

dormentes, na folha branca brilham larvais,

e já fixos me perfuram teus olhos de esfinge,

que imitam tuas orelhas em leque, teu manteau

absoluto, mole de lã ou veludo, sempre Diretor

dum hospital barroco antes do Grand Renfermement,

para quem posas, cantas o Esgueva do pensamento

dos teus contemporâneos, o radical suspiro da Natureza

em cio profundo, linguagem láctea, campo blau,

e me avalias, por fora Ácis, por dentro Polifemo,

assim é o mundo Dom Luís, para mim estás posando,

pré-kafkiana barata insigne vai de ante em ante-sala,

paciente expõe seu elástico decoro enfático, tanto

tens que suportar, por fora Hyde, por dentro tão menino,

pois és menino e para lá da moldura deste quadro

como os negros falas — é de noite que em pérola

se transforma a banalidade, e tua calva preenche

o céu, cede o vazio, e tua palavra uma berceuse escapa.

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