Retrato no açude
Ergue-se um vago véu
De neblina e solitude.
Cada vez mais alto, o céu
Profundo caiu no açude.
Que silêncio de horizonte!
Chegou a hora mais grave.
Nem choro de sanga ou fonte,
Nem sussurro, vôo de ave.
Só um arrepio de brisa
De leve encrespa a água lisa.
No pálido céu vidrado
Procuro-me, e lá no fundo
Há um fantasma debruçado
Para os lados do outro mundo.
Em si mesmo dividido,
Fantasma perdido e achado,
És reflexo refletido,
Em teus olhos retratado.
Leio na face que eu vejo
Para o alto debruçada:
Sou tão próximo e distante!
Aceita o lúcido instante!
Não turves com teu desejo
A paz desta água parada.