● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

A divisão do frango

Alguns ficaram com as minhas partes

piores. Isto é como a divisão do frango

em família numerosa. Faltam coxas para todos.

Isto é como a aprendizagem da generosidade:

o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,

fazíamos de conta que preferíamos outra coisa

e dávamos as partes melhores aos irmãos.

Não sei o que isso dirá de mim e dos meus irmãos.

Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre

uns dos outros as partes melhores.

Parece-me justo e valioso. Parece-me informação

digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.

Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:

"dava a parte melhor do frango aos seus irmãos".

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango

quando há coxas para todos: para dois.

Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.

Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa

sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse

menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com as minhas partes piores.

Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.

Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.

Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante

à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.

Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.

Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.

Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado

que eu crescesse. É natural.

Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

Textos relacionados