● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Água salobra

Falava-se da casa (a minha mãe

falava)

donde viéramos

porém pouco ficara do lugar colocado

à frente dos espelhos da infância

quando em penumbra a vida

se envolvia

Na casa nova a ria começava

logo depois do largo (a feira vinha

com a febre em outubro)

Havia no quintal um poço a corda ia

correndo na roldana e o balde

batia na água com um som vazio

era preciso

bater de novo até encher

subi-lo

com água que nem plantas poderiam

beber a ria vinha

até ali outrora

água salgada e doce misturara-se

ambígua no ar da casa sob os tectos

distantes

tal como a primavera

floria as malvas e aumentava os dias

e no inverno a noite começava

com a espera do meu pai que parecia

vir sempre tarde com

moedas novas reflectindo ainda

o dia findo

À mesa eu observava-lhe

a mão

a meu lado pousada e tacteava

na pele irregular as covas que no meio

os dedos estendendo-se formavam

No comprido canteiro do quintal

o pessegueiro dava flor mais tarde

que a branca amendoeira do quintal do lado

Durante o ano inteiro sobre o muro

os seus ramos tocavam-se

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