● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Escadas de incêndio

Desci a correr pelas escadas de incêndio

de betão, expostas ao vento mais do que ao sol,

suportei a velocidade áspera na mão esquerda

dei a um filho o flanco,

outra criança por um braço,

e provavelmente um par de asas seguiu-nos

mas não ousei virar-me porque diante de mim uma

outra perspectiva da cidade.

Caminho agora de igual modo todas as horas,

repito os gestos essenciais

com esmero, a melhor memória e desvelo.

Sei-os de cor e desenho-os

com os meus dedos, como novos.

Confirmo: sou a mesma que cozinha no mesmo fogão

a gás, outra água, outro combustível,

e tempero com tomilho, a pedra mármore intemporal.

Mais eficaz do que essa escada secreta e tosca,

a repetição salva-nos. Um erro

nunca pode ser emendado, nem quase isso.

Não há outro lugar mais firme senão escondida

a falha

debaixo da acumulação das tarefas normais

repetidas com esforço e zelo, sem excessos:

E sobre o tapete uma coreografia monocórdica,

segura, que faz dos dias

dias em que não se usa a escada de incêndio.

Textos relacionados