Fim de verão II
O som da chuva de algum modo faz
pensar em algo que não tem a ver
com chuva – coisa de anos atrás,
uma lembrança boa, de um prazer
agora transformado em seu oposto
pelo passar do tempo, ou simplesmente
por não ter sequer existido, e o gosto
amargo, embora bom, que você sente
é como um ressaibo das duas vidas
suas, a que foi de fato vivida
e a que não foi. Isto é o que você cheira,
o gosto forte na sua boca é disto,
não da chuva lá fora. (Pelo visto,
vai chover sem parar a noite inteira.)
