Seis sonetos noturnos
I
A qualquer hora, o que se chama vida
pode mudar da água pro vinho. Ou vice-
-versa. Cada palavra proferida –
uma sentença grave, uma tolice –
pode retornar feito um bumerangue
capaz de destruir o que encontrar.
E nada que se funde em carne e sangue
escapa dessas bólides de ar:
o amor e demais estados de graça,
reputações, ações, fazendas, gado,
longos corredores, salas de espera –
tudo à mercê do que afinal não passa
de ar comprimido, aos poucos exalado,
que logo se dissipa na atmosfera.
II
E de repente a coisa aconteceu.
Mas não tal qual se havia imaginado:
Detalhes há que nem sequer o medo
Mais abjeto é capaz de antecipar.
Por isso o sentimento prometido
há tanto tempo, e com tanta minúcia,
chegada a hora, não se concretiza
e assim ao que vem falta essa volúpia
