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No bicentenário de Kant

Sim —

digo que foi sublime. Mas

não desse carácter que certas coisas tomam —

pores de sol numa paisagem vasta

como queria Kant

no seu entendimento extenso

quando se avolumam quando se tornam

grandes como se crescessem para lá do mensurável

e do humano. Antes um sublime

de modéstia ou de pensão barata

de cerveja

tépida num bar em rua lateral às avenidas.

Seja —

nem gestos maiores do que os mais simples

nem outra coisa que os corpos

a sua lividez

a sua bela doçura contra um fundo de ruídos

quotidianos

a sua fome sangrenta e manchada

de culpa

de pecado. Assim nada

que se comente em círculos mais híbridos

ou se diga fora de outro modo de dizer

do que esse que os mesmos corpos pedem

ansiosos

logo se reconhecem.

Na pintura talvez —

por exemplo o sábio Tiziano

velho pintor ousando

toda aquela nudez desfigurada

como se pintasse com o próprio sexo

debaixo das poses voluptuosas

de cânones ainda consentidos

em paganismo de entreter salões

outros segredos que as imagens conservaram.

Sublime então —

não de grandeza ou de terror

mas o da pele

a sibilina pele arrepiando-se

contra um frio mosaico

os joelhos nus

ajoelhando-se uma boca ávida

uma língua a inclinar-se dos dentes

como num quadro de Bacon. Ou

estremecendo um sexo

quando tocado de outro

um do outro

um no outro

um contra o outro

talvez

porque esta guerra é sublime

porque um abraço é sublime quando

transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando

contém na vida a própria morte

um espasmo — um retesar dos músculos

que se querem ainda impetuosos

mesmo se já feridos do cansaço —

isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres

também porque de repente iguais

todos iguais a todos quando

na morte como no gesto nu

despedaçando urgente extremo

exacto o arco que se tende —

isso —

é o mais mortal

porque o mais verdadeiro.

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