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Poema surdo

Chega a noite e surpreende

no meio do silêncio um longo bater de horas

num relógio que não ouves

mas desde sempre acompanhou todas as noites

num corredor que apenas vias

na obscuridade: o exacto retrato do teu medo

esse bater de um coração que traz o tempo

move o tempo

e mecânico

te retira em face da presença da morte

a escolha clara.

Segues caminhos vários

como sempre

todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido

tal a tua sombra

tal a tua tumultuosa sombra de que foges

e procuras

como se apenas em vários movimentos

pudesses coexistir contigo mesmo.

Mas onde a doce escolha

a luz

a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados

o acertado movimento

que os não conduzisse sempre para a cegueira?

Disse-o antes:

o amor sem amor devolve-te a ti mesmo

e tudo o que apenas se passou

insiste no horizonte dos teus olhos

e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos

tens dentro de ti um século

e no entanto nada em ti se esqueceu

nem um vago momento rasga

a fotografia breve daquilo que foi

tudo parece impresso e és tu o papel

emaciado.

Queres dar sentido ao que não tem sentido

ou perceber um rosto no que já não tem rosto

e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos

ver um fio condutor que lá não está.

E tudo à tua volta te desmente

nem a palavra exacta te soa nos ouvidos

nem a boca acompanha a forma das palavras:

como num filme mal dobrado as palavras descoincidem

com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo

te parece por dentro paisagem devastada

que semente alguma

o vento ainda trouxesse a visitar.

Há um tribunal em que és o réu e o advogado

e as testemunhas todas que perpassam

e és também o estrado e a balaustrada

e o juiz circunspecto que te escuta:

e o crime de que te acusam

jamais o perpetraste

mas ainda assim confessas

e pedes o castigo

para que nada reste do que foi a liberdade

para que de ti apenas fique um registo esquecido

num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.

E pergunto-me o que havia no teu rosto

que animal demente prenunciava

na sua a voz mortal que preparava

entre sonhos o sem fim e sem lamento.

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