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Ravena

Tudo o que é instante, tudo o que é traço

Sepultaste nos séculos, Ravena.

Como uma criança, no regaço

Da eternidade estas, serena.

Sob os portais romanos os escravos

Já não trazem mosaicos pelas vias.

O ouro dos muros arde

Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,

Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.

Nos mausoléus azinhavrados jazem

Os santos monjes e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,

Os muros mudos, desde o umbral,

Para não acordar o olhar de Gala,

Negro, a queimar por entre a cal.

Das pegadas de sangue e dor e insídia

O rastro já se apaga e se descora,

Para que a voz gelada de Placídia

Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo,

As rodas circundaram as ameias,

Para que os restos de Teodorico

Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos – ruínas.

Gente e casas – tudo é tumba.

Sobre o bronze as letras latinas

Troam nas lajes como trompa.

Apenas, no tranqüilo e atento olhar

Das moças de Ravena, mudamente,

Às vezes uma sombra de pesar

Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado nas colinas,

Só, pondo os séculos à prova,

Dante – perfil aquilino –

Canta para mim da Vida Nova.

Tradução de Augusto de Campos · original em outro

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