● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Tuberculosa

Alta, a frescura da magnólia fresca,

Da cor nupcial da flor da laranjeira,

Doces tons d'ouro de mulher tudesca

Na veludosa e flava cabeleira.

Raro perfil de mármores exatos,

Os olhos de astros vivos que flamejam,

Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactus

E esse alado das pombas, quando adejam...

Radiava nela a incomparável messe

Da saúde brotando vigorosa,

Como o sol que entre névoas resplandece,

Por entre a fina pele cor-de-rosa.

Era assim luminosa. e delicada

Tão nobre sempre de beleza e graça

Que recordava pompas de alvorada,

Sonoridades de cristais de taça.

Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza.

Daquele corpo virginal e fino,

Sacrário da mais límpida beleza,

Perdeu a graça e o brilho diamantino.

Tísica e branca, esbelta, frígida e alta

E fraca e magra e transparente e esguia,

Tem agora a feição de ave pernalta,

De um pássaro alvo de aparência fria.

Mãos liriais e diáfanas, de neve,

Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,

Ela apresenta a fluidez, a leve

Ondulação da vaporosa lua.

Entre as vidraças, como numa estufa-

No inverno glacial de vento e chuva

Que sobre as telhas tamborila e rufa,

Vejo-a, talhada em nitidez de luva...

E faz lembrar uma esquisita planta

De profundos pomares fabulosos

Ou a angélica imagem de uma Santa

Dentre a auréola de nimbos religiosos.

A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,

Ganhando o corpo, como num terreno...

E com prelúdios místicos de salmo

Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

Jamais há de ela ter a cor saudável

Para que a carne do seu corpo goze,

Que o que tinha esse corpo de inefável

Cristalizou-se na tuberculose.

Foge ao mundo fatal, arbusto débil,

Monja magoada dos estranhos ritos,

Ó trêmula harpa soluçante, flébil,

Ó soluçante, flébil eucaliptus...

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