Canto nono I
I
ainda os carteiros andavam a pé
e a água com gás era no mar
e o sangue grosso diluía
estendia‑se a roupa nos areais
e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida
ainda se entrava e saía deste país
com a ligeireza de um empregado de mesa
ainda ninguém abusava da sua posição
a não ser para lançar filhos ao ar
o homem do talho pendurava
corações excelentes
há muito se tinha abandonado
a ideia dos números oficiais
procuravam‑se ataques de fome
deitando fogo a tocas
e daí nada surgia
a não ser um maior entendimento da terra
e dos seus camaleões sonolentos
farejadores de novas estradas
havia itinerância antes de haver autocarros
e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres
ainda a morte não tinha conhecimento de prosa
e era comum a paixão súbita por cadelas
e explicava‑se a velocidade aos filhos
