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Canto nono I

I

ainda os carteiros andavam a pé

e a água com gás era no mar

e o sangue grosso diluía

estendia‑se a roupa nos areais

e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida

ainda se entrava e saía deste país

com a ligeireza de um empregado de mesa

ainda ninguém abusava da sua posição

a não ser para lançar filhos ao ar

o homem do talho pendurava

corações excelentes

há muito se tinha abandonado

a ideia dos números oficiais

procuravam‑se ataques de fome

deitando fogo a tocas

e daí nada surgia

a não ser um maior entendimento da terra

e dos seus camaleões sonolentos

farejadores de novas estradas

havia itinerância antes de haver autocarros

e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres

ainda a morte não tinha conhecimento de prosa

e era comum a paixão súbita por cadelas

e explicava‑se a velocidade aos filhos

sem loção solar

e as correntes de ar cheiravam à planta do café

e já admirávamos as estrelas

sentados no colo do João dos Santos

ainda pedíamos desculpa quando nos sentávamos

de viés porque aprendemos o provérbio luandino

o sábio corre de costas

ainda não havia moedas nas piscinas naturais

e já o peixe‑espada preto coloria porto‑moniz

e já uma mulher baralhava uma aldeia

com a doçura da roupa trocada

e se havia motoristas era para levarem resumos

éramos todos criados sem toalhetes, só com abraços

ainda os nossos festivais eram por carta

o feminino de puto era miúda e de

abundância vagem

ainda o Líbano não fazia anúncios ao turismo

nem Portugal tinha mar

ninguém tinha dito “esse dinheiro vai

levar‑nos à ruína”

e os homens usavam apenas marcas

de feras perigosas e não sonhavam ainda

escrever a soberanos

nem em catálogos literários

para smart‑shops

e os frigoríficos ainda não interferiam

com a rádio áfrica

e a national geographic era apenas música

e as teorias eram horários que ninguém habitava

e a presença de um filho era a pose

que o amor mais admirava

e o interior e o exterior

eram as posições que essa criança ensaiava

durante o seu sono

e ainda ninguém tinha ocupado as 30 vagas

para pintar na rua.

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