Carnaval carioca
A cidade poliédrica despertou
prodigiosamente vestida de loucura.
Toda a cidade é um coro enorme,
um caleidoscópio de graça e cor.
E até se diria
que a sua profunda saudade o samba perdeu.
Tudo é alegria!
E ronca a cuíca e passam as horas.
Gente desce dos morros para a cidade
e nas ruas dançam como cumprindo um ritual:
Le le le! La la la!
Vingança de todas as semanas cinzentas
de cansaço e trabalho. O povo quer esquecer.
Cantos dos cordões. A avenida fervorosa:
Desfilam baianas, índios, odaliscas.
Carnaval do Rio, que nasce nos morros
e se estende em toda a enorme cidade.
Macum-bebé! Macum-barilá!
Todo mundo canta. E esta faixa,
a distante África em ritmos chega.
Batuques e sambas.
Louca gente bamba.
Vingança de todas as semanas cinzentas
de cansaço e trabalho. Le le le! La la la!
Baile de canela. Baile de carbono.
Sorriem grossos lábios nos rostos amplos de jabuticaba.
A cores gritam em blusas baianas.
Vegetação
do matagal.
Fervor
musical
que zumba
e retumba
infinito,
como em um ritual
de macumba.
Sorriem brancos dentes nos amplos rostos de jabuticaba
até o estremecimento azul do alvorecer.
Carnaval do Rio: o poema de som e cor.
Até a água diáfana das praias dança, louca canção.
E assim, por três dias,
a cidade esquece
que no mundo existe
uma coisa injusta, finíssima e profunda
que se chama
tristeza carioca.
tradução de Igor Calazans