● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

O Deus da minha infância

O Deus da minha infância

era verde

verde como um fruto

amargo como um campo extenso

alargando-se até para lá do horizonte

corria montanhas e rios

descia suave pelas colinas

detinha-se nas ervas

nos riachos

anunciava nas árvores jovens

o rebentar da primavera.

O Deus da minha infância

era loiro

como trigo sereno ondulante

cavava fundo a terra

adormecida e as cigarras

cantavam nela ao fim da tarde:

explodia vivamente

em cada sol

nascia pela manhã e velava de noite

o meu sono

a solidão tranquila

do rosto moldado na almofada.

O Deus da minha infância

era azul

estava em todo o céu como o azul

era as gotas de orvalho

sobre as folhas

o ar muito fino e respirável

que a cada hora atravessava a folhagem

os ramos muito altos

e os enaltecia de verde.

O Deus da minha infância

era breve

colhia-se na tarde

ao calor

sob as árvores generosas como frutos

e apertava-se frio contra os dentes

imaturos

tornando-os rijos e brancos

luminosos

passando em cada gesto

como um sinal intenso.

O Deus da minha infância

ao descer da voz

ouvida ao longe

era um cavalo de prata

junto à minha janela

era um olhar fugaz

que se voltava para a sombra

e que julgava ver nela

todo o mistério do mundo

toda a violência das tardes

toda a ordem plasmada no cosmos

muito amplo

acima de todos

de cada um de nós.

O Deus da minha infância

brincava

com os gatos que saltavam dos telhados

com os cães que adormeciam ao sol

com as crianças

que rodopiavam em rodas

em torno do pião

que rodava.

O Deus da minha infância

era pobre

escutava as vozes das lareiras

comia a broa ázima

pousava sobre a mesa de castanho velho

e detinha-se nas linhas

fundas da madeira

nos seus nós escurecidos:

assomava às janelas

de vidro barato

coalhadas da humidade

descia pela garrafa de azeite espesso

misturava-se com o vapor acre do vinho

crepitava nas brasas entre castanhas e fumo

afundava-se nas rugas dos velhos

de mãos encarquilhadas

pelo frio e pela usura.

O Deus da minha infância

se acaso me visita

fala-me das vezes temerárias

em que me aventurava nas águas agitadas

de um rio

em que afundava o corpo

na terra ainda quente

e abraçando-me a ele

leva-me de volta ali

a esse lugar remoto de onde nunca parti

a essa funda origem

aonde O conheci.

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