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O poema

Não sou eu que escrevo o meu poema:

ele é que se escreve e que se pensa,

como um polvo a distender-se, lento,

no fundo das águas, entre anêmonas

que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena

da memória, do amor, do tormento,

de tudo o que aos poucos se relembra:

um rosto, uma paisagem, a intensa

pulsação da luz manhã adentro.

Ela se escreve vindo do centro

de si mesmo, sempre se contendo.

É medido, estrito, minudente,

música sem clave ou instrumentos

que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão ao invento

não são mais que ociosos ornamentos,

e nenhuma gala lhe acrescentam.

Seja belo ou, ao invés, horrendo,

a ele é que cabe todo engenho,

não a mim, que apenas o contemplo

como um sonho que se sustenta

sobre o nada, quando o mito e a lenda

eram as vísceras de que o poema

se servia para ir-se escrevendo.

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