● Hojesexta, 10 de julhover calendário →

Quando a suprema dor muito me aperta,

Quando a suprema dor muito me aperta,

Se digo que desejo esquecimento,

He fôrça que se faz ao pensamento,

De que a vontade livre desconcerta.

Assi de êrro tão grave me desperta

A luz do bem regido entendimento,

Que mostra ser engano, ou fingimento,

Dizer que em tal descanso mais se acerta.

Porque essa propria imagem, que na mente

Me representa o bem de que careço,

Faz-mo de hum certo modo ser presente.

Ditosa he, logo, a pena que padeço,

Pois que da causa della em mi se sente

Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço.

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